Não me pergunte o que eu faço

01 julho 2014 |
Uma das perguntas que eu mais odeio em ter que responder é "O que você faz?". A conversa aqui só pode tomar dois rumos: 
Rumo número UM: O cara se arrepende profundamente de ter perguntado. Enrola mais um pouco, finge que vai buscar uma cerveja e nunca mais aparece. Nesse caso, eu agradeço a Deus que tenha tomado esse rumo. Porque o segundo é o que eu acho ainda pior. 
Rumo número DOIS: O cara engole em seco e começa a elogiar o fato de eu fazer medicina em uma federal. Puxasão de saco, em geral. Fala que é muito difícil e que eu devo ser muito inteligente. Mas meu reflexo dentro dos seus olhos tem estampado na minha testa "PROBLEMA". Do nada, vou de uma pessoa interessante para uma pessoa absurdamente inteligente. Como se um curso definisse quem eu realmente sou e eu me resumisse aquilo. A conversa continua durante alguns minutos, avança e depois: Fim. Nunca mais o vejo.
Não estou tentando me gabar, vangloriar e nada do tipo. Longe de mim fazer isso. De fato, eu trouxe o tema para a discussão porque, há alguns dias atrás, a última conversa que tive com um garoto culminou no questionamento do meu IRA (índice de rendimento acadêmico, reflete as suas notas na faculdade). E então a conversa acabou por ali. Depois da resposta, do nada, ele se despediu. Deu uma desculpa esfarrapada e nunca mais voltou a falar comigo. E pensar que eu achei que pelo menos ele fosse diferente. 
Outro motivo foi um texto em que li no site do Estadão e que todos estavam compartilhando nas redes sociais, que dizia que as mulheres deveriam parar de achar que os homens não estão preparados para (e não querem) uma mulher independente. Por partes, confesso que a autora tem razão. Mas quantas vezes ela já teve que responder o que eu respondo? Quantas vezes ela já viu caras sumirem depois de obterem a resposta? Quantas vezes ela já pensou em mentir a própria profissão porque não aguentava mais essa babaquice?
Mais uma vez eu reforço, eu, de maneira alguma, acho que uma profissão ou um curso esteja acima de outro. Vejo todos como iguais e gostaria de ser tratada da mesma forma. Não são as notas das pessoas ou o que elas fazem da vida naquele momento que irão resumir um caráter ou uma personalidade. Mas sim as atitudes que elas tomam durante a vida inteira. Ao questionar alguém sobre o que a pessoa faz, nunca deixe um preconceito simples e bobo tomar a sua cabeça. 
E ao ser questionada (ou questionado) sobre o que você faz da vida, não minta. Abra um sorriso cheio de orgulho, encha o peito e diga a verdade. Eu nunca menti. Por mais que eu tenha pensado várias vezes em fazer isso, eu sempre falei a verdade. Porque eu tenho orgulho do que faço e sou segura o suficiente para saber que não sou apenas um estereotipo. 
E quanto ao cara, eu espero que ele tenha sumido porque não queria nada comigo desde o começo. E só por causa do meu IRA e do meu curso. Porque é difícil pensar que alguém que eu achei que tivesse tanto potencial possa ter uma mente tão pequena. 



Eu tinha parado com Clarice Falcão

20 junho 2014 |

É engraçado como você pode descobrir exatamente como eu me sinto através da música que eu estou ouvindo. Deixei há algumas semanas de ouvir Clarice Falcão. Saí do meu fundo de poço imaginário, da minha sarjeta e dei lugar para uma garota determinada a não se deixar levar mais uma vez. O QUE ERA UMA MENTIRA IMENSA. Já que no fim das contas, meu objetivo era exatamente o contrário. Me deixar levar. Finalmente, abrir meu olho e falar: Viu?! Você merece um cara legal.
Então, os passos eram: dê uma chance, fale a verdade, não dispense, e se ele te fizer rir... Aí sim você vai poder pensar nele no dia seguinte. E não deu outra. Mas ainda assim, você é uma garota forte, determinada. Acabou de passar por uma fase difícil. Não se deixe levar tão facilmente. Mas já era, as redes sociais abriam outros caminhos e seu nome já estava lá esperando minha confirmação de amizade antes mesmo de eu deixar o local da festa.
Conversamos duas vezes. Aquela faísca de esperança apareceu finalmente, que fiz questão de deixar bem baixinha para não acabar me decepcionando. Mais de uma semana se passou, e eu me agradeci por ter feito isso. Nem mais uma palavra dele.
E foi quando finalmente encontrei ele não em um bar qualquer. Mas no bar que - por causa da frequência com que vou - chamo de lar. E foi ali, no fim da noite, que eu quis cavar a minha cova no chão, logo ao lado dos hectares onde eu tinha plantado esperanças. Parece que alguma coisa saiu do controle.
Como falar isso sem parecer esquisito? Mas eu gostava dos beijos dele, do perfume, do jeito que ficávamos abraçadinhos em silêncio e, acima de tudo, do jeito que os amigos dele falavam comigo. Como se eu tivesse sido o assunto de várias conversas e como se todos eles estivessem torcendo por nós dois. E é agora que eu percebo pela vigésima vez que eu estou sorrindo sozinha enquanto escrevo esse post. Porque, finalmente, as coisas ficaram um pouco mais claras na minha cabeça. Pela primeira vez, eu via algo que seguia nas duas direções e que eu não estava, mais uma vez, descendo pro fundo do poço.
Só que agora eu estou com medo. Um medo que, me desculpem, mas não consigo colocar em palavras. Eu só queria algumas palavras. Algumas palavras pra me darem mais certeza sobre o chão em que estou pisando. Porque, apesar dos meus 20 anos, estou me sentindo como uma garota de 12 e tudo isso é muito novo pra mim.
Mas como uma sábia pessoinha me disse agora a pouco, se eu não me entregar, ninguém vai poder ser feliz por mim. É hora de me arriscar, porque já tive tempo de colocar minha cabeça em ordem. E uma baguncinha nunca fez mal a ninguém.
E se você, em algum momento desse post, se perguntou: o que eu estou ouvindo? Adivinhem. 
Clarice Falcão. De novo.



Eu não mereço isso

31 maio 2014 |
Só queria te falar que eu não mereço isso. Eu não mereço e mais ninguém. 
Talvez, no fundo, eu tenha ficado até feliz porque aconteceu comigo, e não com uma pessoa que se apega demais. Bom, pelo menos foi com a Fulana: fria, sem coração. Fulana a qual, aos poucos, construiu uma amizade mais sólida que diamante - ou achou que construiu - e acabou se apegando. E agora estou aqui: exausta, cansada e, bom, eu desisto. 
Desisto de tentar fazer dar certo, quando eu sou o único lado que luta. Desisto de tentar fazer você ficar, quando você deixa claro que aqui você não é feliz e que você queria estar mesmo é em Nova York junto com seus antigos amigos. Desisto de tentar fazer sorrir toda vez que você emburra sem motivos nas madrugadas. Desisto de tentar fazer seu dia melhor. Desisto de me ver falando sozinha. Desisto de tentar fazer você responder aos meus sorrisos. 
Eu já deveria ter desconfiado disso. Eu não estou errada em perder sem querer algumas amizades antigas com quem eu não tenho mais assunto. Mas quando se cultiva essas amizades antigas, a ponto de preferir desabafar com alguém que não pode fazer nada por você do que com aquela que está sempre ao seu lado? Bom, eu deveria ter desconfiado mesmo. E agora, eu estou aqui: me sentindo uma palhaça. De que adianta eu ter investido tanto tempo nessa amizade, se está claro que eu não sirvo pra nada? Se quando você precisa de um ombro pra chorar, você se enterra nas mensagens de seus outros amigos no seu celular. Ou quando você se sente sozinho e ao invés de me procurar, você se distancia mais ainda. 
Só me responda: qual o meu papel nisso tudo? 
Percebi que todo esse tempo eu não era nada mais que uma muleta. Que enquanto eu te considerava "my person", eu não era nada mais que Kepner - a garota irritante, enterrada nos próprios sonhos infantis e nas próprias crenças. E que eu não sou o bastante para aguentar problemas de gente grande. 
E eu achando que era só a sua TPM. Que logo ia passar e a amizade ia continuar. Talvez ainda seja sua TPM. Só não sei se aguento isso todo mês.



Caso Clínico: Vazio no peito

03 maio 2014 |

Cheguei àquele momento na vida - aquele dos vinte e poucos que tantos leram -, em que fazemos as reflexões, olhamos para trás e tentamos descobrir onde erramos. Não para não errar de novo, mas para arranjar um jeito de reparar isso porque sabemos que, provavelmente, aquela oportunidade não baterá duas vezes na nossa porta. 
Então vamos analisar o quadro da nossa paciente: Fulana de Tal, 21 anos, feminina, estudante de medicina. Se diz bem satisfeita com sua vida acadêmica, social, profissional e financeira. Queixa principal: um vazio no peito [sic]. Em sua história mórbida atual - onde exploramos a queixa da paciente -, a paciente relata que esse vazio no peito que tende a incomodar sempre, mas que em alguns momentos se torna mais forte. O que acaba a impedindo de realizar atividades de rotina. De uns tempos para cá, a paciente também notou que atividades que tendiam a melhorar o vazio, como baladas e conversas com amigas, não estão sendo mais efetivas. Já tentou afogar o vazio no álcool, já tentou afogar o vazio em uma panela de brigadeiro e até mesmo no próprio vazio. E nada adianta mais. 
Ela também notou que o vazio começou a vir acompanhado de uma dor aguda precordial - no peito -, que piorava quando percebeu que tudo aquilo, provavelmente, era culpa dela. 
Em suas  condições de hábitos de vida, a paciente relata ter dificuldades para dormir, para manter uma conversa durante mais de dez minutos com algum desconhecido, para facilitar a própria vida, para falar o que pensa e para querer o melhor para si. 
Na revisão de sistemas: relata lacrimejamento excessivo ao assistir a maioria das séries e  falta de borboletas no estômago.

E então, doutores, o que podemos fazer por essa paciente? 



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