Eu não mereço isso

31 maio 2014 |
Só queria te falar que eu não mereço isso. Eu não mereço e mais ninguém. 
Talvez, no fundo, eu tenha ficado até feliz porque aconteceu comigo, e não com uma pessoa que se apega demais. Bom, pelo menos foi com a Fulana: fria, sem coração. Fulana a qual, aos poucos, construiu uma amizade mais sólida que diamante - ou achou que construiu - e acabou se apegando. E agora estou aqui: exausta, cansada e, bom, eu desisto. 
Desisto de tentar fazer dar certo, quando eu sou o único lado que luta. Desisto de tentar fazer você ficar, quando você deixa claro que aqui você não é feliz e que você queria estar mesmo é em Nova York junto com seus antigos amigos. Desisto de tentar fazer sorrir toda vez que você emburra sem motivos nas madrugadas. Desisto de tentar fazer seu dia melhor. Desisto de me ver falando sozinha. Desisto de tentar fazer você responder aos meus sorrisos. 
Eu já deveria ter desconfiado disso. Eu não estou errada em perder sem querer algumas amizades antigas com quem eu não tenho mais assunto. Mas quando se cultiva essas amizades antigas, a ponto de preferir desabafar com alguém que não pode fazer nada por você do que com aquela que está sempre ao seu lado? Bom, eu deveria ter desconfiado mesmo. E agora, eu estou aqui: me sentindo uma palhaça. De que adianta eu ter investido tanto tempo nessa amizade, se está claro que eu não sirvo pra nada? Se quando você precisa de um ombro pra chorar, você se enterra nas mensagens de seus outros amigos no seu celular. Ou quando você se sente sozinho e ao invés de me procurar, você se distancia mais ainda. 
Só me responda: qual o meu papel nisso tudo? 
Percebi que todo esse tempo eu não era nada mais que uma muleta. Que enquanto eu te considerava "my person", eu não era nada mais que Kepner - a garota irritante, enterrada nos próprios sonhos infantis e nas próprias crenças. E que eu não sou o bastante para aguentar problemas de gente grande. 
E eu achando que era só a sua TPM. Que logo ia passar e a amizade ia continuar. Talvez ainda seja sua TPM. Só não sei se aguento isso todo mês.



Caso Clínico: Vazio no peito

03 maio 2014 |

Cheguei àquele momento na vida - aquele dos vinte e poucos que tantos leram -, em que fazemos as reflexões, olhamos para trás e tentamos descobrir onde erramos. Não para não errar de novo, mas para arranjar um jeito de reparar isso porque sabemos que, provavelmente, aquela oportunidade não baterá duas vezes na nossa porta. 
Então vamos analisar o quadro da nossa paciente: Fulana de Tal, 21 anos, feminina, estudante de medicina. Se diz bem satisfeita com sua vida acadêmica, social, profissional e financeira. Queixa principal: um vazio no peito [sic]. Em sua história mórbida atual - onde exploramos a queixa da paciente -, a paciente relata que esse vazio no peito que tende a incomodar sempre, mas que em alguns momentos se torna mais forte. O que acaba a impedindo de realizar atividades de rotina. De uns tempos para cá, a paciente também notou que atividades que tendiam a melhorar o vazio, como baladas e conversas com amigas, não estão sendo mais efetivas. Já tentou afogar o vazio no álcool, já tentou afogar o vazio em uma panela de brigadeiro e até mesmo no próprio vazio. E nada adianta mais. 
Ela também notou que o vazio começou a vir acompanhado de uma dor aguda precordial - no peito -, que piorava quando percebeu que tudo aquilo, provavelmente, era culpa dela. 
Em suas  condições de hábitos de vida, a paciente relata ter dificuldades para dormir, para manter uma conversa durante mais de dez minutos com algum desconhecido, para facilitar a própria vida, para falar o que pensa e para querer o melhor para si. 
Na revisão de sistemas: relata lacrimejamento excessivo ao assistir a maioria das séries e  falta de borboletas no estômago.

E então, doutores, o que podemos fazer por essa paciente? 



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